Portugal 0: a volta a Portugal pelas margens, numa KTM 300 a 2 tempos

Porquê "Portugal 0"
Portugal é um retângulo. Se lhe dermos a volta pelas margens, o traço no mapa fecha-se num zero. Foi essa a ideia: contornar o país pelas extremidades, longe do alcatrão e das cidades, por trilhos, linhas de água e calçadas antigas. Sozinho, numa KTM 300 EXC a 2 tempos. Só no penúltimo dia tive companhia.
Dias 1 e 2 · Trás-os-Montes
«As pessoas são genuinamente boas em Trás-os-Montes. Oferecem sem pedir. E se pedirmos, oferecem o dobro.»
O terreno era-me familiar, mas mesmo assim surpreendeu-me. Os trilhos levaram-me a paisagens abertas, de horizontes distantes, e a passagens estreitas e técnicas, cheias de pormenor. No primeiro dia avistei uma raposa, vários coelhos e perdizes, passei por pinhais e carvalhais e percorri várias linhas de água à sombra de amieiros.
Cheguei a Soutelinho da Raia pelas 16h e encontrei a aldeia em alvoroço: GIPS, GNR e bombeiros, com cães e drones, procuravam uma senhora desaparecida e perguntaram-me se a tinha visto.
Sem alojamento por perto, montei a tenda no relvado do recreio da escola, que, como muitas por estes lados, já não é escola, é apenas um edifício. Rapei frio: escolhi mal o saco-cama. Nesse dia conheci a família do restaurante Rampa JB, a Verónica, o João e os filhos, e o endurista local Leandro, que me deu dicas e me falou da Rota da Castanheira.
O segundo dia fez-se por caminhos que conheço bem: era a quarta vez que os fazia de moto de enduro, e outras tantas de bicicleta. Os acessos agrícolas bem tratados deixam rolar depressa e em segurança, e as linhas de água e as zonas altas quebram a monotonia com single tracks. Os pontos altos foram a travessia do Parque Natural de Montesinho, a passagem por Rio de Onor e a chegada a Sendim. Pelo caminho falei com dois casais estrangeiros apaixonados pelo interior de Portugal: «As nossas férias são aqui!». Compreendo-os bem.
Em Sendim visitei a Sandra e a Susana, que fazem na sua loja malas, casacos e bolsas em burel, tecido 100% de lã de ovelha. Dormi e jantei n'A Gabriela, restaurante e residencial. Aqui tudo é tradicional, e ainda bem: há um só prato, a posta mirandesa feita pela receita da Gabriela, avó das atuais proprietárias, a Adelaide e a Lurdes. Terá sido a primeira casa a servir posta à mirandesa. Vem com batatas rústicas e uma salada de alface, tomate e cebola temperada com o azeite da região, e ainda tive direito a sobremesa caseira.

Dia 3 · Douro Internacional e Vale do Côa
«Portugal é infinito em trilhos.»
Foi um dia em cheio, com 219 km. Logo de manhã, o trilho na Ribeira da Piçarra, junto ao Douro, justificou ter vindo de moto de enduro. Seguiram-se a Calçada Romana em Lamoso, uma bela passagem bem técnica, e a Calçada de Santa Ana, um cantinho a não perder mesmo antes de Barca d'Alva. Em Castelo Rodrigo foi pena não ter tempo para me sentar na esplanada.
Depois, a Via Sacra na Serra da Marofa: uma subida por um trilho técnico, com as imagens de Cristo mesmo nos cotovelos do trilho. E, ao fim do dia, a cereja em cima do bolo: o Vale do Côa.
Pelo caminho, o grupo da Associação de Vilarinho dos Galegos parecia estar à minha espera à beira da estrada, com sopa e bifana. Nem precisei de pedir. Valeu a paragem para conhecer as pessoas, um pouco das suas vidas e o que esperam dos mais novos.
Dormi nas Termas do Cró. Quanto mais remoto, melhor: menos gente, mais disponibilidade, melhor serviço e a um preço acessível.

Dia 4 · Malcata e a primeira avaria
«Por mais preparados que estejamos, vão surgir contrariedades. Há que encará-las com uma atitude positiva e, se possível, tirar proveito delas.»
Os pontos altos foram a travessia da Serra da Malcata, a subida à Serra da Gardunha com descida pelas trialeiras até São Vicente da Beira, e os últimos quilómetros até ao Retaxo.
Mas foi também o dia da primeira avaria. Na Serra da Malcata parti 20 raios da roda traseira, talvez pela velocidade e pela dureza do terreno, e a câmara especial Tubolite furou. Nunca me tinha acontecido. Devia ter revisto o aperto dos raios. Tive de chegar à estrada e pedir reboque até à Motobrioso, no Fundão.
Foi a escolha perfeita. Cheguei às 15h e às 17h já estava a rolar: o Sr. Brioso, muito profissional e com stock de tudo, resolveu tudo num ápice. Passei a rolar com Bib Mousse e pneus Michelin, e notei bem a diferença. O Brioso e a Georgina Brioso foram as pessoas que me marcaram nesse dia: boa vontade e profissionalismo são uma combinação poderosa.
Dormi na Herdade da Urgueira, recebido pela Cristina, numa propriedade junto a um lago onde se pode fazer pesca desportiva.

Dia 5 · Ródão, o PR4 e uma noite de pesca no Tejo
Depois do pequeno-almoço da Cristina e da Célia, segui para Vila Velha de Ródão. Nas Portas de Ródão, o Tejo terá sido em tempos travado por uma barragem natural, e por isso encontram-se seixos rolados por todos os caminhos.
O trilho do Castelo do Rei Wamba, a descer, estava marcado mas quase não passei, de tanta vegetação. Há demasiadas rotas em Portugal sem manutenção. Já na margem sul do Tejo fui ao miradouro do Conhal e decidi descer pelo PR4. Duríssimo: muito técnico, com descidas acentuadas, em cotovelo e cheias de degraus. Tive de desmontar várias vezes e deixei cair a mota um par de vezes.

Quando saí do trilho fui direto procurar onde descansar, beber e comer, e encontrei O Túlio, em Santana, onde a especialidade são as sopas de peixe com ovas do Tejo. Sentei-me à mesa com os pescadores Hugo e Fernando e com o amigo Hernâni. Bons conversadores, convidaram-me para ir à pesca no Tejo ao fim do dia, de barco e rede. Nem pensei duas vezes: já chegava de moto por hoje. Bebemos, nadámos, conversámos, pescámos, jantámos, e aceitei o convite para dormir.
Foi um dia diferente. Foi deixar seguir. Inesperado, mas correu muito bem.

Dias 6 e 7 · Alentejo
«Da vida só levamos o que vivemos.»
No Alentejo estão a fechar as passagens com portões e cadeados. Já não é só para segurar o gado, é para impedir a entrada, mesmo em caminhos marcados como rotas. Torna a travessia cada vez mais difícil. Ainda assim, com persistência, descobri cantos muito interessantes, e vale a pena insistir.
No sexto dia, os pontos altos foram a travessia do Parque Natural da Serra de São Mamede, o caminho de Marvão até à Nossa Senhora da Graça dos Degolados e o troço pela margem do Guadiana até à Ponte da Ajuda. Foi um dia de fartura alentejana: pezinhos de coentrada ao almoço no café Nicole, nos Degolados, e ao jantar sopa de tomate com ovo escalfado e figos, uma refeição completa, na Adega dos Ramalhos. Dormi em Alandroal, na C'alma d'Alentejo, uma casa muito bem decorada que recomendo.
O sétimo dia teve 240 km. A manhã foi aborrecida, com muitos campos, retas, estradões largos e portões fechados, mas passei pelo Alqueva e fiz um percurso mais interessante antes de Monsaraz. Até Serpa usei um track de BTT para fugir aos portões. Almocei em Santo Amado, aldeia junto à fronteira com Espanha: entrecosto no forno com massa de pimentão e migas, no Cantinho da Maria. Em Serpa parei no Café Sevilha, de José Troncão, a cervejaria dos locais, que me traz boas recordações com bons amigos.
O ponto alto foi de Serpa a Mértola, pelo GR15, que atravessa o Parque Natural do Vale do Guadiana. A pequena serra quebrou a monotonia da manhã e os portões fechados foram muito menos. Ao jantar, coelho selvagem frito. Pelo que vi nos caminhos, coelhos e lebres não faltam por ali.

Dias 8 e 9 · Baixo Alentejo, Monchique e o dia da areia
«Afinal gosto muito do Alentejo, do Baixo Alentejo.»
Tirei umas horas para conhecer Mértola, e cortei o cabelo e fiz a barba com o Pedro, da Garage 43, que trocou Setúbal por Mértola. Ao ir atestar, cruzei-me com o Lés-a-Lés. A fila era enorme e desisti, e percebi melhor por que deixei de ter interesse nestes eventos.

Com meio depósito, segui para o litoral. Como já conhecia a Serra do Caldeirão, fintei-a e atravessei pelo Baixo Alentejo: belos troços de enduro por serras, montes, campos e linhas de água, quase sem cercas nem portões. Muito sobe e desce, muita curva, muita condução, muito divertimento. Pelo caminho ajudei o Artur, de Guimarães, que fazia o Lés-a-Lés e tinha dois furos na BMW GS. Pusemos três tacos e ele seguiu. Ficou a dever um jantar em Guimarães.
Perto de Monchique o terreno fica mais irregular e ainda mais divertido. Pena os eucaliptos, que deixam os trilhos sujos pelo trabalho dos madeireiros.


O nono dia foi o dia da areia. Fiz o famoso trilho do gasoduto na Costa Vicentina, muito conhecido no todo-o-terreno e no overland pelas longas retas de areia solta. Já de noite, sem querer, entrei numa propriedade privada por um buraco numa cerca que não vi. Sair de lá foi um episódio caricato, porque havia segurança, e quase foi preciso chamar a GNR. Prevaleceu o bom senso.


Dias 10 e 11 · Do Sado à Serra de Aire
Ao décimo dia tive de parar numa loja chinesa para comprar uma chave Torx T45 e apertar os apoios do guiador. Felizmente, têm tudo e estão abertos ao domingo. Mais tarde tive ainda de apertar o seletor de velocidades. Era dia de eleições e votei em Santa Susana, uma aldeia muito interessante.
Cruzei a Estrada Nacional 2 várias vezes. O percurso dos Pinheiros Redondos, que a acompanha nessa zona, é rápido e divertido, com piso branco e vermelho, poças de lama e alguma areia, entre pinheiros e sobreiros. Passei pela Barragem do Maranhão, com uma albufeira comprida e espetacular.
Em Avis, o Clube Motard de Avis recebeu-me com umas cervejas e uma boa conversa sobre motas e viagens. Falei muito com o Francisco Oliveira, um dos fundadores do clube, que apoia o Travelers Event, um encontro de viajantes na primeira semana de setembro. Montei a tenda no parque de campismo de Avis, jantei um gelado e dormi bem.

No dia seguinte, ao arrumar a tenda, dei com um caracol lá dentro. Segui para Ponte de Sor por Galveias, por caminhos rápidos entre sobreiros e pinheiros, numa serra de apenas 260 m que me surpreendeu e onde há um centro de BTT a que quero voltar. Quase atravessei o Rio Sor a vau, mas havia uma velha ponte metálica e não arrisquei.
Depois de Ponte de Sor segui para a Golegã, pela zona militar de Santa Margarida, onde encontrei o Sr. Abel, guardador do gado do Exército, que me contou que ali também se rouba cortiça ao Exército. Almocei caracóis no Café Central, na Golegã, muito bem servido pela Mónica Abreu. Da Golegã à Serra de Aire foi um instante: subi ao topo por um soberbo single track de calcário, entre azinheiras e carvalhos-cerquinhos, a passar por velhos moinhos.
Foi um bom dia. Já nem sei distinguir os melhores. Têm sido todos muito bons.

Dia 12 · Um pneu novo e as serras do Centro
«Muitas vezes na vida devemos parar para resolver os problemas. Outras vezes devemos é andar para a frente, que eles acabam por se resolver.»
O pneu de trás estava a ficar nas lonas e tinha de o trocar. Por incrível que pareça, não foi fácil. Liguei logo de manhã para a Jomoto e não atenderam. Arrisquei passar por lá: estavam muitos clientes à espera e o telefone não parava de tocar. Demoraram 15 minutos a dar-me atenção e, apesar de terem o pneu, o chefe da oficina disse que só o montavam "de tarde". Depressa percebi que "de tarde" seria a tarde toda e pus-me a andar. A solução apareceu, como de costume, no caminho: na Full Tyre, em Penela, o Paulo, endurista, tinha pneus 140/80/18 e recomendou-me um Michelin Tracker. Atendimento de cinco estrelas, com direito a conversa de enduro e café. Fiquei muito satisfeito. Tomem nota deste lugar.

Na Serra de Sicó e na Lousã tive a sorte de escolher um longo single track até ao topo. As serras do Centro superaram as expectativas, sobretudo as mais pequenas. Encontrei a capela da Senhora da Serra, encaixada na rocha, e quase atropelei um casal de veados na Serra da Lousã.
Um erro de navegação meteu-me num trilho fechado pela vegetação e, a chegar a Mortágua, caí nas silvas, a baixa velocidade. Uma silva prendeu-se entre o pedal do travão de trás e o quadro. Ainda houve tempo para um banho de piscina.
Dia 13 · Caramulo, Freita e Arada
Neste dia juntou-se a mim um amigo destas andanças. Já tinha saudades de boa companhia: anda-se mais à vontade sozinho, mas também é bom ter companhia.
Foi o dia com mais topos de serra: Pereiro (441 m), Águas Boas (881 m), Caramulo (1075 m), Cabeço da Raposa (980 m), Pinoucas (1062 m), Cruzinha (1017 m), Janus (1043 m), Abas (987 m), Pena (881 m). Em Vouzela reabasteci a máquina e o corpo, com um extraordinário pastel de Vouzela. Conselho: comprem os do tabuleiro do dia, não os que estão em caixa.
O melhor estava para vir: as serras da Freita e da Arada. Como é possível, quase no fim de uma volta inteira a Portugal, ainda ficar tão impressionado? Caminhos e trilhos uns atrás dos outros, uns duros, outros rápidos, quase todos divertidos e com vistas fabulosas. Na zona de Pedrógão, junto ao Pico do Viso, há um caminho brutal que não tive tempo de explorar até ao fim. Fica para outra visita obrigatória.
Em Alvarenga esperava-nos a Sandra, na Casa de Noronha Lima, uma casa cheia de história. Estadia perfeita, e ao jantar um belo bife de Alvarenga na Casa dos Bifes Caetano.
Dia 14 · Montemuro, Marão e casa
«Terá sido esta a viagem da minha vida? Espero que não. Mas foi, até agora, uma viagem inesquecível.»
Tanto em tão pouco tempo. Portugal é imenso em tão pouco espaço. Saí pelo Alvão e cheguei pelo Marão. Abrandei nos últimos quilómetros, para durar mais.
O ponto alto foi a subida do Marão, até aos 1416 m. Mas o Montemuro foi uma das melhores serras que atravessei, por tudo: paisagem, caminhos, trilhos, aldeias. Tenho de voltar, e o mais depressa possível.


Até casa fiz o máximo possível por caminhos: atravessei o Marão, saí no alto da Boavista, atravessei a Campeã e, de repente, casa. Cheguei bem, com saudades de casa, mas com muita vontade de repetir.


O percurso, dia a dia
- Dia 1 · 31 mai Vila Real → Cimo de Vila da Castanheira · 197 km · PN do Alvão · serras do Alvão, Padrela e Larouco
- Dia 2 · 1 jun Cimo de Vila da Castanheira → Sendim · 187 km · PN de Montesinho · serras de Montesinho e Mogadouro
- Dia 3 · 2 jun Sendim → Termas do Cró · 219 km · PN do Douro Internacional · Gardunha
- Dia 4 · 3 jun Termas do Cró → Perais · 164 km · RN da Serra da Malcata
- Dia 5 · 4 jun Perais → Arneiro · 35 km
- Dia 6 · 5 jun Arneiro → Alandroal · 250 km · PN da Serra de São Mamede
- Dia 7 · 6 jun Alandroal → Mértola · 240 km · PN do Vale do Guadiana
- Dia 8 · 7 jun Mértola → Monchique · 224 km · Serra do Caldeirão
- Dia 9 · 8 jun Monchique → Alcácer do Sal · 237 km · Serra de Monchique · PN do Sudoeste Alentejano e Costa Vicentina
- Dia 10 · 9 jun Alcácer do Sal → Avis · 220 km · serras de Cabrela, Monfurado e Cabeção
- Dia 11 · 10 jun Avis → Batalha · 170 km · PN das Serras de Aire e Candeeiros
- Dia 12 · 11 jun Batalha → Mortágua · 183 km · serras de Sicó e Lousã
- Dia 13 · 12 jun Mortágua → Alvarenga · 166 km · Vouga, Caramulo e Arouca Geopark · serras do Caramulo, Freita e Arada
- Dia 14 · 13 jun Alvarenga → Vila Real · 110 km · serras de Montemuro e Marão
Total: 2602 km.
O que fica
Quanto mais remoto é o lugar, menos gente, mais disponibilidade e melhor somos recebidos. As paisagens tiraram-me o fôlego, mas foram as pessoas que deram alma a esta rota.
Faria tudo igual, mas por outros caminhos. E eles estão lá à minha espera, uns mais marcados que outros, mas chamam por mim.
Perguntas frequentes
Quantos quilómetros tem o Portugal 0?
2602 km, feitos em 14 dias, entre 31 de maio e 13 de junho de 2024.
Onde começa e acaba a volta?
Em Vila Real. A rota passa pelo nordeste transmontano, desce pela raia até ao Alentejo e ao Baixo Alentejo, sobe pela Costa Vicentina e pelo Centro, e regressa a Vila Real pelas serras de Montemuro e Marão.
Que mota foi usada?
Uma KTM 300 EXC a 2 tempos, de enduro.
Onde se dorme numa viagem destas?
Na primeira noite, numa tenda no recreio de uma antiga escola. Nas outras, em pensões, termas, hotéis, casas de turismo, um parque de campismo e, numa noite, em casa de pescadores do Tejo.
Que avarias houve?
20 raios partidos e a câmara furada na Serra da Malcata, resolvidos em duas horas na Motobrioso, no Fundão. Mais tarde, a troca do pneu traseiro na Full Tyre, em Penela, e alguns apertos.

























