José Ramos

Economista de Vila Real. Aqui junto o que me faz andar: viagens de moto de enduro, a bicicleta com as minhas filhas, receitas de família e canyoning.

Retrato de José Ramos, a sorrir, a preto e branco

Sobre mim

Vila Real é a partida. A moto, a bicicleta, a corda e o tacho são o caminho. Pai da Marta e da Maria, economista de formação e curioso de profissão: aqui conto o que vou aprendendo pelo caminho.

Fora do trabalho

  • Bicicleta todas as semanas: all mountain, cross country, cicloturismo e gravel.
  • Escalada e canyoning todos os meses.
  • Piloto de moto de enduro e de 4x4, e organizador de percursos fora de estrada com cartas e GPS.
  • Mergulhador, com carta até 33 metros, e carta de marinheiro.

Associações

  • Vogal da direção da NERVIR (2008 – 2016).
  • Fui presidente da Assembleia Geral da Associação Rota Dura e membro do Rotary Club de Vila Real.
  • Irmão da Santa Casa da Misericórdia de Vila Real.

Viagens

VIAGEM

Portugal 0: a volta a Portugal pelas margens, numa KTM 300 a 2 tempos

31 de maio a 13 de junho de 2024 · 14 dias · 2602 km · Vila Real a Vila Real

Moto de enduro num trilho de montanha com vista sobre o vale
Dia 14 · a caminho de casa
Em resumo. O Portugal 0 foi uma volta a Portugal continental feita quase pelas extremidades, numa moto de enduro KTM 300 EXC 2T, a solo em 13 dos 14 dias. Comecei e acabei em Vila Real e fiz 2602 km, sobretudo fora do alcatrão, por parques naturais e serras de norte a sul.

Porquê "Portugal 0"

Portugal é um retângulo. Se lhe dermos a volta pelas margens, o traço no mapa fecha-se num zero. Foi essa a ideia: contornar o país pelas extremidades, longe do alcatrão e das cidades, por trilhos, linhas de água e calçadas antigas. Sozinho, numa KTM 300 EXC a 2 tempos. Só no penúltimo dia tive companhia.

Mapa do percurso Portugal 0 Percurso de 2602 km em 14 dias à volta de Portugal continental, com partida e chegada em Vila Real. 1234567891011121314 Vila Real
O percurso real, a partir dos GPX dos 14 dias. Os números marcam o início de cada dia; o tracejado é o reboque da Serra da Malcata até ao Fundão. Contorno: Natural Earth.

Dias 1 e 2 · Trás-os-Montes

«As pessoas são genuinamente boas em Trás-os-Montes. Oferecem sem pedir. E se pedirmos, oferecem o dobro.»

O terreno era-me familiar, mas mesmo assim surpreendeu-me. Os trilhos levaram-me a paisagens abertas, de horizontes distantes, e a passagens estreitas e técnicas, cheias de pormenor. No primeiro dia avistei uma raposa, vários coelhos e perdizes, passei por pinhais e carvalhais e percorri várias linhas de água à sombra de amieiros.

Cheguei a Soutelinho da Raia pelas 16h e encontrei a aldeia em alvoroço: GIPS, GNR e bombeiros, com cães e drones, procuravam uma senhora desaparecida e perguntaram-me se a tinha visto.

Sem alojamento por perto, montei a tenda no relvado do recreio da escola, que, como muitas por estes lados, já não é escola, é apenas um edifício. Rapei frio: escolhi mal o saco-cama. Nesse dia conheci a família do restaurante Rampa JB, a Verónica, o João e os filhos, e o endurista local Leandro, que me deu dicas e me falou da Rota da Castanheira.

O segundo dia fez-se por caminhos que conheço bem: era a quarta vez que os fazia de moto de enduro, e outras tantas de bicicleta. Os acessos agrícolas bem tratados deixam rolar depressa e em segurança, e as linhas de água e as zonas altas quebram a monotonia com single tracks. Os pontos altos foram a travessia do Parque Natural de Montesinho, a passagem por Rio de Onor e a chegada a Sendim. Pelo caminho falei com dois casais estrangeiros apaixonados pelo interior de Portugal: «As nossas férias são aqui!». Compreendo-os bem.

Em Sendim visitei a Sandra e a Susana, que fazem na sua loja malas, casacos e bolsas em burel, tecido 100% de lã de ovelha. Dormi e jantei n'A Gabriela, restaurante e residencial. Aqui tudo é tradicional, e ainda bem: há um só prato, a posta mirandesa feita pela receita da Gabriela, avó das atuais proprietárias, a Adelaide e a Lurdes. Terá sido a primeira casa a servir posta à mirandesa. Vem com batatas rústicas e uma salada de alface, tomate e cebola temperada com o azeite da região, e ainda tive direito a sobremesa caseira.

José Ramos com as proprietárias à porta do restaurante A Gabriela
A Gabriela, em Sendim, com a Adelaide e a Lurdes

Dia 3 · Douro Internacional e Vale do Côa

«Portugal é infinito em trilhos.»

Foi um dia em cheio, com 219 km. Logo de manhã, o trilho na Ribeira da Piçarra, junto ao Douro, justificou ter vindo de moto de enduro. Seguiram-se a Calçada Romana em Lamoso, uma bela passagem bem técnica, e a Calçada de Santa Ana, um cantinho a não perder mesmo antes de Barca d'Alva. Em Castelo Rodrigo foi pena não ter tempo para me sentar na esplanada.

Depois, a Via Sacra na Serra da Marofa: uma subida por um trilho técnico, com as imagens de Cristo mesmo nos cotovelos do trilho. E, ao fim do dia, a cereja em cima do bolo: o Vale do Côa.

Pelo caminho, o grupo da Associação de Vilarinho dos Galegos parecia estar à minha espera à beira da estrada, com sopa e bifana. Nem precisei de pedir. Valeu a paragem para conhecer as pessoas, um pouco das suas vidas e o que esperam dos mais novos.

Dormi nas Termas do Cró. Quanto mais remoto, melhor: menos gente, mais disponibilidade, melhor serviço e a um preço acessível.

Grupo de pessoas numa selfie com José Ramos
Com o grupo da Associação de Vilarinho dos Galegos

Dia 4 · Malcata e a primeira avaria

«Por mais preparados que estejamos, vão surgir contrariedades. Há que encará-las com uma atitude positiva e, se possível, tirar proveito delas.»

Os pontos altos foram a travessia da Serra da Malcata, a subida à Serra da Gardunha com descida pelas trialeiras até São Vicente da Beira, e os últimos quilómetros até ao Retaxo.

Mas foi também o dia da primeira avaria. Na Serra da Malcata parti 20 raios da roda traseira, talvez pela velocidade e pela dureza do terreno, e a câmara especial Tubolite furou. Nunca me tinha acontecido. Devia ter revisto o aperto dos raios. Tive de chegar à estrada e pedir reboque até à Motobrioso, no Fundão.

Foi a escolha perfeita. Cheguei às 15h e às 17h já estava a rolar: o Sr. Brioso, muito profissional e com stock de tudo, resolveu tudo num ápice. Passei a rolar com Bib Mousse e pneus Michelin, e notei bem a diferença. O Brioso e a Georgina Brioso foram as pessoas que me marcaram nesse dia: boa vontade e profissionalismo são uma combinação poderosa.

Dormi na Herdade da Urgueira, recebido pela Cristina, numa propriedade junto a um lago onde se pode fazer pesca desportiva.

José Ramos e o Sr. Brioso à frente da oficina Motobrioso
Motobrioso, no Fundão: duas horas depois, de volta aos trilhos

Dia 5 · Ródão, o PR4 e uma noite de pesca no Tejo

Depois do pequeno-almoço da Cristina e da Célia, segui para Vila Velha de Ródão. Nas Portas de Ródão, o Tejo terá sido em tempos travado por uma barragem natural, e por isso encontram-se seixos rolados por todos os caminhos.

O trilho do Castelo do Rei Wamba, a descer, estava marcado mas quase não passei, de tanta vegetação. Há demasiadas rotas em Portugal sem manutenção. Já na margem sul do Tejo fui ao miradouro do Conhal e decidi descer pelo PR4. Duríssimo: muito técnico, com descidas acentuadas, em cotovelo e cheias de degraus. Tive de desmontar várias vezes e deixei cair a mota um par de vezes.

Moto de enduro num trilho rochoso e inclinado
O trilho duro antes de chegar ao Túlio

Quando saí do trilho fui direto procurar onde descansar, beber e comer, e encontrei O Túlio, em Santana, onde a especialidade são as sopas de peixe com ovas do Tejo. Sentei-me à mesa com os pescadores Hugo e Fernando e com o amigo Hernâni. Bons conversadores, convidaram-me para ir à pesca no Tejo ao fim do dia, de barco e rede. Nem pensei duas vezes: já chegava de moto por hoje. Bebemos, nadámos, conversámos, pescámos, jantámos, e aceitei o convite para dormir.

Foi um dia diferente. Foi deixar seguir. Inesperado, mas correu muito bem.

Pescadores num barco no rio Tejo
A pescar no Tejo com o Hugo, o Fernando e o Hernâni

Dias 6 e 7 · Alentejo

«Da vida só levamos o que vivemos.»

No Alentejo estão a fechar as passagens com portões e cadeados. Já não é só para segurar o gado, é para impedir a entrada, mesmo em caminhos marcados como rotas. Torna a travessia cada vez mais difícil. Ainda assim, com persistência, descobri cantos muito interessantes, e vale a pena insistir.

No sexto dia, os pontos altos foram a travessia do Parque Natural da Serra de São Mamede, o caminho de Marvão até à Nossa Senhora da Graça dos Degolados e o troço pela margem do Guadiana até à Ponte da Ajuda. Foi um dia de fartura alentejana: pezinhos de coentrada ao almoço no café Nicole, nos Degolados, e ao jantar sopa de tomate com ovo escalfado e figos, uma refeição completa, na Adega dos Ramalhos. Dormi em Alandroal, na C'alma d'Alentejo, uma casa muito bem decorada que recomendo.

O sétimo dia teve 240 km. A manhã foi aborrecida, com muitos campos, retas, estradões largos e portões fechados, mas passei pelo Alqueva e fiz um percurso mais interessante antes de Monsaraz. Até Serpa usei um track de BTT para fugir aos portões. Almocei em Santo Amado, aldeia junto à fronteira com Espanha: entrecosto no forno com massa de pimentão e migas, no Cantinho da Maria. Em Serpa parei no Café Sevilha, de José Troncão, a cervejaria dos locais, que me traz boas recordações com bons amigos.

O ponto alto foi de Serpa a Mértola, pelo GR15, que atravessa o Parque Natural do Vale do Guadiana. A pequena serra quebrou a monotonia da manhã e os portões fechados foram muito menos. Ao jantar, coelho selvagem frito. Pelo que vi nos caminhos, coelhos e lebres não faltam por ali.

Moto de enduro parada junto a um rio no Alentejo
Dia 7 · Alentejo

Dias 8 e 9 · Baixo Alentejo, Monchique e o dia da areia

«Afinal gosto muito do Alentejo, do Baixo Alentejo.»

Tirei umas horas para conhecer Mértola, e cortei o cabelo e fiz a barba com o Pedro, da Garage 43, que trocou Setúbal por Mértola. Ao ir atestar, cruzei-me com o Lés-a-Lés. A fila era enorme e desisti, e percebi melhor por que deixei de ter interesse nestes eventos.

José Ramos e o barbeiro Pedro na Garage 43
Com o Pedro, na Garage 43, em Mértola

Com meio depósito, segui para o litoral. Como já conhecia a Serra do Caldeirão, fintei-a e atravessei pelo Baixo Alentejo: belos troços de enduro por serras, montes, campos e linhas de água, quase sem cercas nem portões. Muito sobe e desce, muita curva, muita condução, muito divertimento. Pelo caminho ajudei o Artur, de Guimarães, que fazia o Lés-a-Lés e tinha dois furos na BMW GS. Pusemos três tacos e ele seguiu. Ficou a dever um jantar em Guimarães.

Perto de Monchique o terreno fica mais irregular e ainda mais divertido. Pena os eucaliptos, que deixam os trilhos sujos pelo trabalho dos madeireiros.

Moinho branco ao fundo de um caminho de terra
Dia 8 · Baixo Alentejo
Trilho a passar por baixo de um viaduto de pedra
Dia 8 · Baixo Alentejo

O nono dia foi o dia da areia. Fiz o famoso trilho do gasoduto na Costa Vicentina, muito conhecido no todo-o-terreno e no overland pelas longas retas de areia solta. Já de noite, sem querer, entrei numa propriedade privada por um buraco numa cerca que não vi. Sair de lá foi um episódio caricato, porque havia segurança, e quase foi preciso chamar a GNR. Prevaleceu o bom senso.

Moto de enduro junto ao mar numa enseada rochosa
Dia 9 · Costa Vicentina
Trilho de areia junto à costa
Dia 9 · o dia da areia

Dias 10 e 11 · Do Sado à Serra de Aire

Ao décimo dia tive de parar numa loja chinesa para comprar uma chave Torx T45 e apertar os apoios do guiador. Felizmente, têm tudo e estão abertos ao domingo. Mais tarde tive ainda de apertar o seletor de velocidades. Era dia de eleições e votei em Santa Susana, uma aldeia muito interessante.

Cruzei a Estrada Nacional 2 várias vezes. O percurso dos Pinheiros Redondos, que a acompanha nessa zona, é rápido e divertido, com piso branco e vermelho, poças de lama e alguma areia, entre pinheiros e sobreiros. Passei pela Barragem do Maranhão, com uma albufeira comprida e espetacular.

Em Avis, o Clube Motard de Avis recebeu-me com umas cervejas e uma boa conversa sobre motas e viagens. Falei muito com o Francisco Oliveira, um dos fundadores do clube, que apoia o Travelers Event, um encontro de viajantes na primeira semana de setembro. Montei a tenda no parque de campismo de Avis, jantei um gelado e dormi bem.

Moto estacionada à porta da sede dos Motards d'Aviz
Na sede do Clube Motard de Avis

No dia seguinte, ao arrumar a tenda, dei com um caracol lá dentro. Segui para Ponte de Sor por Galveias, por caminhos rápidos entre sobreiros e pinheiros, numa serra de apenas 260 m que me surpreendeu e onde há um centro de BTT a que quero voltar. Quase atravessei o Rio Sor a vau, mas havia uma velha ponte metálica e não arrisquei.

Depois de Ponte de Sor segui para a Golegã, pela zona militar de Santa Margarida, onde encontrei o Sr. Abel, guardador do gado do Exército, que me contou que ali também se rouba cortiça ao Exército. Almocei caracóis no Café Central, na Golegã, muito bem servido pela Mónica Abreu. Da Golegã à Serra de Aire foi um instante: subi ao topo por um soberbo single track de calcário, entre azinheiras e carvalhos-cerquinhos, a passar por velhos moinhos.

Foi um bom dia. Já nem sei distinguir os melhores. Têm sido todos muito bons.

Single track de pedra calcária na serra
Dia 11 · a subir a serra

Dia 12 · Um pneu novo e as serras do Centro

«Muitas vezes na vida devemos parar para resolver os problemas. Outras vezes devemos é andar para a frente, que eles acabam por se resolver.»

O pneu de trás estava a ficar nas lonas e tinha de o trocar. Por incrível que pareça, não foi fácil. Liguei logo de manhã para a Jomoto e não atenderam. Arrisquei passar por lá: estavam muitos clientes à espera e o telefone não parava de tocar. Demoraram 15 minutos a dar-me atenção e, apesar de terem o pneu, o chefe da oficina disse que só o montavam "de tarde". Depressa percebi que "de tarde" seria a tarde toda e pus-me a andar. A solução apareceu, como de costume, no caminho: na Full Tyre, em Penela, o Paulo, endurista, tinha pneus 140/80/18 e recomendou-me um Michelin Tracker. Atendimento de cinco estrelas, com direito a conversa de enduro e café. Fiquei muito satisfeito. Tomem nota deste lugar.

José Ramos e Paulo à frente da Full Tyre com a moto
Pneu novo na Full Tyre, em Penela, com o Paulo

Na Serra de Sicó e na Lousã tive a sorte de escolher um longo single track até ao topo. As serras do Centro superaram as expectativas, sobretudo as mais pequenas. Encontrei a capela da Senhora da Serra, encaixada na rocha, e quase atropelei um casal de veados na Serra da Lousã.

Um erro de navegação meteu-me num trilho fechado pela vegetação e, a chegar a Mortágua, caí nas silvas, a baixa velocidade. Uma silva prendeu-se entre o pedal do travão de trás e o quadro. Ainda houve tempo para um banho de piscina.

Dia 13 · Caramulo, Freita e Arada

Neste dia juntou-se a mim um amigo destas andanças. Já tinha saudades de boa companhia: anda-se mais à vontade sozinho, mas também é bom ter companhia.

Foi o dia com mais topos de serra: Pereiro (441 m), Águas Boas (881 m), Caramulo (1075 m), Cabeço da Raposa (980 m), Pinoucas (1062 m), Cruzinha (1017 m), Janus (1043 m), Abas (987 m), Pena (881 m). Em Vouzela reabasteci a máquina e o corpo, com um extraordinário pastel de Vouzela. Conselho: comprem os do tabuleiro do dia, não os que estão em caixa.

O melhor estava para vir: as serras da Freita e da Arada. Como é possível, quase no fim de uma volta inteira a Portugal, ainda ficar tão impressionado? Caminhos e trilhos uns atrás dos outros, uns duros, outros rápidos, quase todos divertidos e com vistas fabulosas. Na zona de Pedrógão, junto ao Pico do Viso, há um caminho brutal que não tive tempo de explorar até ao fim. Fica para outra visita obrigatória.

Em Alvarenga esperava-nos a Sandra, na Casa de Noronha Lima, uma casa cheia de história. Estadia perfeita, e ao jantar um belo bife de Alvarenga na Casa dos Bifes Caetano.

Dia 14 · Montemuro, Marão e casa

«Terá sido esta a viagem da minha vida? Espero que não. Mas foi, até agora, uma viagem inesquecível.»

Tanto em tão pouco tempo. Portugal é imenso em tão pouco espaço. Saí pelo Alvão e cheguei pelo Marão. Abrandei nos últimos quilómetros, para durar mais.

O ponto alto foi a subida do Marão, até aos 1416 m. Mas o Montemuro foi uma das melhores serras que atravessei, por tudo: paisagem, caminhos, trilhos, aldeias. Tenho de voltar, e o mais depressa possível.

Vista de serras verdes a partir de um trilho
Serra do Marão
Vista ampla de serra a partir do guiador da moto
Serra do Marão

Até casa fiz o máximo possível por caminhos: atravessei o Marão, saí no alto da Boavista, atravessei a Campeã e, de repente, casa. Cheguei bem, com saudades de casa, mas com muita vontade de repetir.

Trilho estreito numa encosta verde
Serra do Marão
Trilho de pedra numa serra
Serra do Marão, quase em casa

O percurso, dia a dia

  1. Dia 1 · 31 mai Vila Real → Cimo de Vila da Castanheira · 197 km · PN do Alvão · serras do Alvão, Padrela e Larouco
  2. Dia 2 · 1 jun Cimo de Vila da Castanheira → Sendim · 187 km · PN de Montesinho · serras de Montesinho e Mogadouro
  3. Dia 3 · 2 jun Sendim → Termas do Cró · 219 km · PN do Douro Internacional · Gardunha
  4. Dia 4 · 3 jun Termas do Cró → Perais · 164 km · RN da Serra da Malcata
  5. Dia 5 · 4 jun Perais → Arneiro · 35 km
  6. Dia 6 · 5 jun Arneiro → Alandroal · 250 km · PN da Serra de São Mamede
  7. Dia 7 · 6 jun Alandroal → Mértola · 240 km · PN do Vale do Guadiana
  8. Dia 8 · 7 jun Mértola → Monchique · 224 km · Serra do Caldeirão
  9. Dia 9 · 8 jun Monchique → Alcácer do Sal · 237 km · Serra de Monchique · PN do Sudoeste Alentejano e Costa Vicentina
  10. Dia 10 · 9 jun Alcácer do Sal → Avis · 220 km · serras de Cabrela, Monfurado e Cabeção
  11. Dia 11 · 10 jun Avis → Batalha · 170 km · PN das Serras de Aire e Candeeiros
  12. Dia 12 · 11 jun Batalha → Mortágua · 183 km · serras de Sicó e Lousã
  13. Dia 13 · 12 jun Mortágua → Alvarenga · 166 km · Vouga, Caramulo e Arouca Geopark · serras do Caramulo, Freita e Arada
  14. Dia 14 · 13 jun Alvarenga → Vila Real · 110 km · serras de Montemuro e Marão

Total: 2602 km.

O que fica

Quanto mais remoto é o lugar, menos gente, mais disponibilidade e melhor somos recebidos. As paisagens tiraram-me o fôlego, mas foram as pessoas que deram alma a esta rota.

Faria tudo igual, mas por outros caminhos. E eles estão lá à minha espera, uns mais marcados que outros, mas chamam por mim.

Perguntas frequentes

Quantos quilómetros tem o Portugal 0?

2602 km, feitos em 14 dias, entre 31 de maio e 13 de junho de 2024.

Onde começa e acaba a volta?

Em Vila Real. A rota passa pelo nordeste transmontano, desce pela raia até ao Alentejo e ao Baixo Alentejo, sobe pela Costa Vicentina e pelo Centro, e regressa a Vila Real pelas serras de Montemuro e Marão.

Que mota foi usada?

Uma KTM 300 EXC a 2 tempos, de enduro.

Onde se dorme numa viagem destas?

Na primeira noite, numa tenda no recreio de uma antiga escola. Nas outras, em pensões, termas, hotéis, casas de turismo, um parque de campismo e, numa noite, em casa de pescadores do Tejo.

Que avarias houve?

20 raios partidos e a câmara furada na Serra da Malcata, resolvidos em duas horas na Motobrioso, no Fundão. Mais tarde, a troca do pneu traseiro na Full Tyre, em Penela, e alguns apertos.

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Quero chegar aos 100

Aos 100 anos. Aos 100 kg. De preferência aos dois.

Há quem conte calorias. Eu conto almoços. Há quem procure a dieta perfeita. Eu procuro a receita da minha mãe, da minha avó, dos amigos, dos tios, dos vizinhos e de qualquer pessoa que ainda saiba que cozinhar não é seguir uma lista de instruções. É contar histórias enquanto se mexe um tacho.

O projeto nasceu de uma ideia simples: se um dia quero chegar aos 100 anos, mais vale aproveitar o caminho. E para isso não basta comer. É preciso escolher uma receita, os melhores ingredientes e alguém especial para a ensinar. Cozinhar sem pressa. Abrir uma garrafa de vinho. Ouvir histórias que nunca vieram nos livros. Comer. Repetir. E guardar a memória.

Claro que existe um risco: entre os 100 anos e os 100 kg, a distância pode ser mais curta do que imaginamos. Mas há riscos que valem a pena.

Em breve: Arroz de Couve da Minha Mãe · Bacalhau Dourado da Minha Avó · Favas de Pele com Salpicão · Moscow Mule.

CULINÁRIA

Arroz de CouBe NaBiça com Moira

Receita da Quinta Fonte Rainha (QFR) · cozinha transmontana

José Ramos e uma senhora a olhar para o tacho do arroz com couve e moira
Na cozinha da Quinta Fonte Rainha.
Em resumo. Um clássico transmontano onde a simplicidade manda: começa com um estrugido, passa por um arroz bem torrado e termina com uma boa couve nabiça e uma moira daquelas que merecem respeito. Serve-se com broa de milho e vinho tinto.

Ingredientes

  • Azeite
  • Cebola
  • Arroz
  • Água quente
  • Couve, de preferência nabiça
  • Moura (em Vila Real, moira)
  • Para servir: broa de milho e um bom vinho tinto

Preparação

  1. Tacho com azeite e cebola picada a estrugir
    Estrugido

    Num tacho, fazer um estrugido com azeite e cebola cortada.

  2. Arroz a fritar no estrugido
    Fritar o arroz

    Adicionar o arroz e ir mexendo até ficar transparente.

  3. Arroz com água quente a ferver
    Água quente

    Adicionar água quente e deixar ferver.

  4. Folhas de couve nabiça por cima do arroz
    CouBe

    Adicionar a couve. Pode ser uma qualquer, mas fica melhor a nabiça.

  5. Moira a aquecer num tacho com água
    Moira

    Aquecer bem a moura. Nós, na Bila, dizemos moira. Comprada em Vila Real: a da Aleu é boa.

  6. Moira cortada sobre o arroz, com broa de milho
    Moira no arroz

    Adicionar a moura ao arroz, cortá-la e deixar o suco espalhar-se pelo arroz. Aquecer um pouco de broa de milho e escolher um bom vinho tinto.

  7. Tacho de arroz com moira na mesa, ao lado de uma garrafa de vinho tinto
    Amor

    Esta receita só funciona servida com amor, à família, aos amigos ou aos namorados. Com um bom vinho, fomenta boas conversas. Quem for de esquisitices por ser um fumeiro de sangue fica a perder.

«A regra principal é simples: servir com amor, broa de milho, vinho tinto e pessoas interessantes à mesa. O arroz trata do resto.»

Perguntas frequentes

O que é a moira?

É a moura, um enchido de sangue transmontano. Em Vila Real diz-se moira.

Que couve se usa no arroz de couBe?

Pode ser uma qualquer, mas fica melhor a couve nabiça.

Com que se serve?

Com broa de milho aquecida e um bom vinho tinto, à mesa com família ou amigos.

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Canyoning

Em construção. Esta secção está a ser preparada.

Logótipo Pedais do Pai, desde 2020 José Ramos de capacete de bicicleta, a sorrir e de polegar para cima

Pedais do Pai

Pedalar para estar perto.

Há pais que levam os filhos à praia. Há pais que levam os filhos a hotéis. Eu levo as minhas filhas, a Marta e a Maria, de bicicleta.

Desde 2020, todos os anos reservamos uma semana para desaparecer do mapa. Carregamos as bicicletas, escolhemos uma direção e partimos. Já pedalámos pelo litoral português, pela costa alentejana, pelas Astúrias, pelos caminhos de Santiago, pela Galiza, pelo Gerês, pelo Alvão e pelas estradas e trilhos de Trás-os-Montes.

Mas este projeto nunca foi sobre geografia. Nem sobre desporto. Nem sequer sobre bicicletas. É sobre tempo. Tempo verdadeiro, sem distrações. Tempo para conversar durante uma subida, para resolver um problema mecânico, para procurar onde dormir, para enfrentar chuva, calor, vento ou cansaço. Tempo para descobrir que as dificuldades costumam ensinar mais do que o conforto.

«A bicicleta é rápida o suficiente para nos levar longe, mas lenta o suficiente para nos permitir observar.»

Sentimos o cheiro de uma floresta, o som de uma aldeia, a mudança da paisagem, o sabor de uma refeição merecida depois de muitas horas a pedalar. Num carro tudo passa depressa. A pé tudo demora demasiado. A bicicleta está exatamente no meio: é o ritmo perfeito para descobrir o mundo. E talvez também para descobrir quem somos.

Ao longo destes anos atravessámos montanhas, vales, praias, cidades, aldeias, caminhos históricos e lugares que nunca aparecerão em nenhum guia turístico. Conhecemos pessoas extraordinárias. Dormimos em campismos, pensões, hotéis improváveis e lugares que não estavam no plano. Mudámos de rota. Mudámos de ideias. Fizemos asneiras. Aprendemos. Voltámos a partir.

No fundo, este projeto tem um só objetivo: estar próximo das minhas filhas enquanto elas crescem. Criar memórias que não cabem num telemóvel. Ensinar autonomia sem dar lições. Mostrar que o mundo é maior do que o nosso dia a dia. E aproveitar o privilégio de ainda podermos pedalar lado a lado.

Agosto de 2025, na volta de Finisterra, Corunha e Santiago de Compostela.

Uma semana por ano

  1. 2020 · 16 a 25 de agostoPorto → Melgaço → Vila RealA estreia das filhas nestas andanças: a Marta tinha 14 anos. Pedalámos sem destino, do Porto sempre para norte. Chegados a Melgaço, debaixo de chuva, decidimos rumar a Vila Real, pelo Gerês e pelo Alvão. Foi inesquecível.
  2. 2021 · 15 a 22 de agostoVila Nova de Milfontes → Vila do Bispo → Vila Nova de MilfontesA Costa Alentejana é uma fresca surpresa: muitos trilhos de pisos diversos, até areia, muita vista de mar, praias deliciosas, boa comida e pouca gente. Bela volta de e-bike.
  3. 2022 · 9 a 16 de agostoAstúrias: Costa Verde e litoral do Cantábrico, em campismo na Playa de Vega, RibadesellaUma volta intensa às origens do nosso local favorito de férias em campismo, a Playa de Vega. De e-bike, explorámos o verde intenso dos prados e da vegetação que chega muito perto das falésias, das praias e das vilas piscatórias.
  4. 2023 · 6 a 12 de agostoPorto → Lisboa, com regresso de comboioO litoral de Portugal, do Porto a Lisboa, pela EuroVelo 1.
  5. 2024 · 3 a 10 de agostoVila Real → Santiago de Compostela, pelo Caminho de Chaves; regresso pelo Gerês e pelo AlvãoOs caminhos de Santiago: muita história, muitos trilhos e muitas estadias nas «termas» pelo caminho. O regresso repetiu os exigentes caminhos do Gerês e do Alvão.
  6. 2025 · 17 a 24 de agostoFinisterra → Corunha → Santiago de Compostela → FinisterraUma volta pelos caminhos de Santiago e por outros, pela Costa da Morte e pelos caminhos interiores. Um pico nas nossas viagens.
  7. 2026 · 17 a 26 de agostoVila Real → Ribeira de Pena → Montalegre → Chaves → Mirandela → Vidago → Vila RealEra obrigatório conhecer o nosso distrito. Estamos em casa, mas parece que estamos longe: o distrito é grande e tem paisagens únicas. Comida do melhor, gente ainda melhor e belas estadias, do Forte de São Francisco ao Vidago Palace. Estaremos a ficar lordes? Para que trazemos a tenda?

2020 · A primeira viagem

Porto → Melgaço → Vila Real · 16 a 25 de agosto

A estreia das filhas nestas andanças: a Marta tinha 14 anos. Pedalámos sem destino, do Porto sempre para norte. Chegados a Melgaço, debaixo de chuva, decidimos rumar a Vila Real, pelo Gerês e pelo Alvão. Foi inesquecível.

«Um dia elas seguirão os seus próprios caminhos. Espero que, quando olharem para trás, se lembrem destas semanas como algumas das melhores viagens da nossa vida. Não porque fomos longe. Mas porque fomos juntos.»

Em breve: a história de cada viagem.

Retrato de José Ramos de camisa branca, a preto e branco

Eu a trabalhar

Hoje sou Diretor Comercial da BEEQ, a marca de bicicletas da RTE, em Vila Nova de Gaia.

Lidero a equipa de vendas e a de pós-venda, abro novos parceiros e mercados e ajudo a ligar o que o mercado pede ao produto que desenvolvemos. Implementei o CRM HubSpot e os processos de venda da marca, e participo nas decisões de produto, de marketing e de entrada em novos mercados.

Cheguei à RTE em 2017 como gestor de projetos e ajudei a lançar a BEEQ. Entre 2019 e 2024 dirigi o I&D e o desenvolvimento de negócio, com as equipas de produto, vendas e marketing e os grandes clientes OEM.

Antes disso, durante duas décadas em Vila Real, fui sócio-gerente da Real Futuro, de formação, design e webdesign, e gestor comercial e de marketing na Minfo e na Minfo Gráfica.

Pelo caminho: Economia na UTAD, formação na Porto Business School, equipas de 7 e de 18 pessoas lideradas e oito anos na direção da NERVIR, a associação empresarial de Vila Real.

Percurso profissional

  1. 2025 – hojeDiretor Comercial BEEQ · RTE, SAGestão e formação da equipa de vendas e da equipa de pós-venda, implementação do CRM HubSpot e dos processos de venda, abertura de novos parceiros e mercados, planeamento de produção da marca BEEQ.
  2. 2019 – 2024Diretor de I&D e Desenvolvimento de Negócio · RTE, SAGestão das equipas de desenvolvimento de produto, vendas e marketing, propostas de investimento em produto e acompanhamento de grandes clientes OEM.
  3. 2017 – 2019Gestor de Projetos · RTE, SANovos projetos e desenvolvimento de produto, abertura de fornecedores, clientes OEM e lançamento do site beeq-bicycles.com.
  4. 2006 – 2017Gestor e Marketing · Minfo GráficaResponsável comercial, planeamento de produção, compras, design e formação de equipas, com ganhos de produtividade.
  5. 2003 – 2006Gestor e Marketing · MinfoInformática e gráfica: área comercial e lançamento do site minfo.pt.
  6. 1999 – 2019Sócio-gerente · Real Futuro, Formação e ComputadoresFormação, design e webdesign, recursos humanos e gestão de projetos.
  7. 1998 – 1999Área comercial · ROR, Rochas Ornamentais

Formação

  1. 2021 – 2022Porto Business SchoolNegociação, marketing, gestão de projetos, liderança, planeamento estratégico e gestão de operações.
  2. 2005Licenciatura em Economia · UTADCom passagem pela Faculdade de Economia do Porto.
  3. 1990 – 1993Técnico de Gestão de PME · Escola Profissional Agostinha Roseta

Competências

  • Liderança: dirigi equipas de 7 e de 18 pessoas.
  • Gestão comercial, de projetos e de equipas; desenvolvimento de produto.
  • Línguas: português (nativo) e inglês (B2).
  • Ferramentas: HubSpot, SAP, Primavera, Excel, CorelDraw, Photoshop.