2020 · A primeira viagem
A estreia das filhas nestas andanças: a Marta tinha 14 anos. Pedalámos sem destino, do Porto sempre para norte. Chegados a Melgaço, debaixo de chuva, decidimos rumar a Vila Real, pelo Gerês e pelo Alvão. Foi inesquecível.
Pedalar para estar perto.
Há pais que levam os filhos à praia. Há pais que levam os filhos a hotéis. Eu levo as minhas filhas, a Marta e a Maria, de bicicleta.
Desde 2020, todos os anos reservamos uma semana para desaparecer do mapa. Carregamos as bicicletas, escolhemos uma direção e partimos. Já pedalámos pelo litoral português, pela costa alentejana, pelas Astúrias, pelos caminhos de Santiago, pela Galiza, pelo Gerês, pelo Alvão e pelas estradas e trilhos de Trás-os-Montes.
Mas este projeto nunca foi sobre geografia. Nem sobre desporto. Nem sequer sobre bicicletas. É sobre tempo. Tempo verdadeiro, sem distrações. Tempo para conversar durante uma subida, para resolver um problema mecânico, para procurar onde dormir, para enfrentar chuva, calor, vento ou cansaço. Tempo para descobrir que as dificuldades costumam ensinar mais do que o conforto.
«A bicicleta é rápida o suficiente para nos levar longe, mas lenta o suficiente para nos permitir observar.»
Sentimos o cheiro de uma floresta, o som de uma aldeia, a mudança da paisagem, o sabor de uma refeição merecida depois de muitas horas a pedalar. Num carro tudo passa depressa. A pé tudo demora demasiado. A bicicleta está exatamente no meio: é o ritmo perfeito para descobrir o mundo. E talvez também para descobrir quem somos.
Ao longo destes anos atravessámos montanhas, vales, praias, cidades, aldeias, caminhos históricos e lugares que nunca aparecerão em nenhum guia turístico. Conhecemos pessoas extraordinárias. Dormimos em campismos, pensões, hotéis improváveis e lugares que não estavam no plano. Mudámos de rota. Mudámos de ideias. Fizemos asneiras. Aprendemos. Voltámos a partir.
No fundo, este projeto tem um só objetivo: estar próximo das minhas filhas enquanto elas crescem. Criar memórias que não cabem num telemóvel. Ensinar autonomia sem dar lições. Mostrar que o mundo é maior do que o nosso dia a dia. E aproveitar o privilégio de ainda podermos pedalar lado a lado.
A estreia das filhas nestas andanças: a Marta tinha 14 anos. Pedalámos sem destino, do Porto sempre para norte. Chegados a Melgaço, debaixo de chuva, decidimos rumar a Vila Real, pelo Gerês e pelo Alvão. Foi inesquecível.
«Um dia elas seguirão os seus próprios caminhos. Espero que, quando olharem para trás, se lembrem destas semanas como algumas das melhores viagens da nossa vida. Não porque fomos longe. Mas porque fomos juntos.»
Em breve: a história de cada viagem.