Mauritania 2011

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Partilha de uma aventura intensa em emoções, experiências e momentos vividos numa viagem a África pelo deserto do Sahara até à Mauritânia.

 

Os primeiro dias de acampamento no Sahara Ocidental

Paisagens e locais de acampamento únicos.

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Os primeiro dias de acampamento no Sahara Ocidental
Paisagens e locais de acampamento únicos.

Antes de Layoune acampamos numa pequena enseada banhada pelo Atlântico. A noite era de lua cheia e o céu estava limpo. Fomos preveligiados por um luar que enchia a enseada e reflectia no mar de uma forma que as nossas baratas máquinas digitais não conseguiram captar. No segundo dia ficamos na península de Dakhla. Local preveligiado pela enormes extensões de areia e baixios, com condições de vento que proporcionam excelentes condições para a prática de kite surf e "kart" surf. Existem vários acampamentos dedicados a estes desportos e à pesca desportiva. Dakhla tem um potencial turístico enorme, e as pessoas são simpáticas e dedicadas aos poucos turístas que a visitam.

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(1.º Acampamento junto a uma praia antes de Layoune)


A Fronteira e a Pista do Combóio
A Fronteira

Depois de 3 dias de viagem passando pelo Sahara Ocidental (actualmente território de marrocos) chegamos à Fronteira da Mauritânia. É preciso estar preparado psicologicamente para passar as fronteiras em África. A desorganização aparente deverá ter algum objectivo. Os registos de entrada de pessoas e veículos são manuais e em livros como os da contabilidade antiga.

É necessário dar explicações à polícia, aos militares e ao controlo aduaneiro. É conveniente e cortez dar uns brindes, como esferográficas, t-shirts ou bonés. Mas demora sempre, no nosso caso 2 horas para sair de marrocos e outras 2 para entrar na mauriania. No final ficamos com a impressão de que é tempo perdido, mas também que, pelo menos, os "gendarms" qurem mesmo saber por onde vamos e onde vamos ficar. Ajudou termos um mapa com a rota prevista e com os locais onde iríamos ficar.
A primeira pista

Com a primeira pista veio o primeiro engano, andamos uns quilómetros perdidos em asfalto em direcção ao Sul, e decidimos pelo "corta mato" em azimute para a pista correcta. Correu bem dado que o terreno permitia rolar depressa e era necessário ter em atenção a algumas depressões do tipo "valas", por isso, fizemos algumas travagens mais fortes mas, passados 30 minutos, estavamos na pista certa. A pista dos comboíos que nos levaria ao Ben Amera era exigente, pois tinha vários tipos de piso e alternava entre o estradão rápido e zonas apertadas mais técnicas e lentas mas sempre com armadilhas. A pista também começava a ter areia que estava muito solta e era muito fina, por isso, prendia muito e, nas subidas, exigia muito motor.

Acampamos na areia ao lado da pista atrás de uma duna para não dar nas vistas e o objectivo de chegar neste dia ao Ben Amera não foi conseguido, sobretudo, pela demora na fronteira, mas o sol é que manda e rolar de noite é mais arriscado.
O primeiro problema mecânico

Acordamos cedo e arrancamos com 30 minutos de sol feito em direcção ao Ben Amera. Paramos no primeiro posto militar fora de estrada onde gentilmente nos indicaram que poderiamos comprar "essence" pois o Toyota Landcruiser V8 tinha 3/4 do depósito gasto e, sempre que fosse possivel, deviamos abastecer pois existia o receio de não encontrar gasolina em todas as vilas e cidades. Assim foi, o mecânico local tinha 80 litros na mala de um landrover antigo e o problema foi medir a gasolina e coloca-la no depósito, pois o buraco do tanque era mais estreito que o do gasóleo, tarefa essa que demorou quase uma hora mas, por incrivel que pareça, pagamos apenas 295 de OUGUIAS, que são 0,85€ por litro.

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(O 3.º maior Monólito do mundo: Bem Amira)

Realizada a pista chegamos mesmo à hora do almoço ao terceiro maior monólito do mundo, chamado Ben Amera. "O Calhau é mesmo grande!" foi a frase mais ouvida durante o primeiro quarto de hora. De facto a geografia próxima deste ponto parece tirada de um qualquer cenário de filme de ficção. Um penedo gigante rodeado de uma planície de areia e dunas.

De barriga mais confortável partimos em direção ao trilho marcado no GPS, pistas de areia largas e sem inclinação constantemente ocupadas por dunas, claramente se moveram por cima da pista marcada.

Ops! Chegamos a um ponto que parece ser mais difícil. Enterraram-se três carros e no esforço de progredir o Jeep partiu a transmissão da frente. Momentos de tristeza logo superados pela vivacidade do grupo em desenterrar o carro com a ajuda dos guinchos, pás e pranchas. O pior era rolar apenas com tracção traseira na areia mas, com ajuda de uma cinta e de outro carro, conseguimos chegar a terreno mais duro e tomamos a decisão de voltar a trás para nos desviarmos das dunas e progredir mais facilmente até à próxima localidade.

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Bendita CHOUM, localidade perto da linha de comboio com um maravilhoso mecânico indicado pelo chefe da policia local que nos reparou a transmissão do Jeep em menos de 4 horas. Serrou, soldou e montou a tramsnissão que chegaria ao fim da viagem.

A avaria fez-nos desviar do trajecto marcado, mas ainda que apreensivos com a resistência da transmissão reparada rolávamos com todas as viaturas a quatro rodas, e isso era essecial em alguns trilhos que tinhamos programado.

Rolamos ao fim do dia, e de noite, na pista que liga CHOUM a ATAR e montamos acampamento perto do posto militar que ficava a meio do percurso.
Chegada a Atar e contacto com o mercado local

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No dia seguinte chegamos a Atar com o objectivo de abastecer as viaturas de combustível, água e mantimentos. Logo que paramos estava à nossa espera o Juste, estrangeiro radicado em Atar que teria sido avisado pelo militares da nossa chegada. Ofereceu-nos o seu albergue Bab Sahara para passar a noite, mas nós tinhamos outros plano, Chinguetti. Muito simpático não insistiu, mas passeou connosco pelo mercado e contou-nos o que se passava por Atar e pela Mauritânia. Os turistas deixaram de visitar o país, sobretudo os franceses depois do governo francês ter considerado o país como "red zone". Disse ele. "Antes aterrava, pelo menos, um charter por semana só em Atar, agora zero." e ainda: "Vão encontrar em Chinguetti uma cidade bela às portas do grande deserto mas fantasma porque não tem vida". Em relação à segurança do país e dos turistas disse-nos que dificilmente teríamos qualquer problema, e que as autoridades estariam sempre por perto para ajudar. Foi ainda uma fonte de informação bastante útil sobre os costumes dos locais e seu modo de vida.
Noites em Chinguetti

Depois do abastecimento rolamos em direcção a Chinguetti por uma pista larga cheia de "serrilha", o único alcatrão que existia seria na subida pela montanha que proporcionou uma bonita vista pelo vale em direcção a Atar.

Tínhamos como referência o albergue La Gueila e mal chegamos a Chinguetti fomos abordado pelo responsável do albergue que nos passou o telefone à dona de nacionalidade francesa. Estabelecemos o preço para um dia por pessoa em 6000 OUGUIAS por dia, renogociado mais tarde para dois dias por 4000 por pessoa, ou seja 11,40€ / dia por pessoa.

A anfitriâ foi fantástica e dispôs até da cozinha para fazermos o jantar. O edifício foi construído respeitando a arquitectura típica, decorado com bom gosto e muito confortável, sem grandes luxos, mas com o essencial, bom duche, boa cama e limpo.

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(Interior do Albergue La Gueila em Chinguetti; Landcruiser 105 capotado por alguém em chinguetti)

Como chegamos logos após o almoço, depois de instalados no albergue, descarregamos as viaturas para libertar peso e fomos visitar Chinguetti. Um guia local levou-nos à biblioteca muito antiga e mostrou-nos a cidade velha quase engolida pela areia. Ficamos com a ideia de que o principal problema da cidade não é a falta de àgua, mas sim o avanço da areia. Sem a ajuda do governo a cidade velha está a ficar rodeada de areia.

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Visitamos ainda a mesquita local, um poço e um oasis onde estavam situadas várias explorações agrícolas de produção de tâmaras. Com orgulho diziam "São as melhores da mauritânia". Á água dos poços serviu ainda de brincadeiras para nos refrescar. Ainda tivemos tempo de ver algumas viaturas acidentadas estacionada na cidade. O Landcruiser 105 despertou-me atenção especial...

O jantar foi picanha brasileira graças às arcas congeladoras. Cozinhei um arroz "basmati" para acompanhar. O vinho de Vila Real terminou nesse dia, e falou-se de vários assuntos entre os quais os mais interessantes foram: a vida militar do Zeca como instrutor de comandos, os Saltos do Fuzileiro Morgas e a crise de Portugal, não de euros mas sim de educação, cultura, inovação e empreendedorismo. Animados descansamos em colchão com o objectivo de partirmos cedo para Oudane e retornarmos a Chinguetti onde passaríamos mais uma noite.
Viagem a Ouadane

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Decidimos ir pelo deserto. O início da pista pelo vale de areia foi extraordinário. Sempre a fundo e com os carros leves parecia muito mais fácil rolar, mas depresa chegamos a zonas onde as barbas de camelo (erva no deserto que é um problema pois cria blcos de arreia duros) nos fizeram abrandar. O ritmo abrandou e fizeram-se uns quilómetros aborrecidos. Só algumas dunas nos faziam distrair da montonia da areia cheia de barbas de camelo.

Oudane é uma cidade implantada numa encosta rochosa e num planalto. Pouco visitamos. Passamos no obrigatório posto militar para controlar os nossos movimentos e compramos gasolina para o V8 no mercado negro, mais uma vez no mecânico local.

Voltamos a Chinguetti pela pista principal. A média de velocidade era mais rápida e só se rolava bem acima dos 80 km/h por causa da "serrilha". Chegados ao Albergue ainda houve tempo, para quem quis, para brincar na areia mesmo en Chinguetti o vale e as dunas são tipo um parque de diversões para os 4x4. Usamos pela primeira vez o "Ballom Jack" (macaco em tela que usa os gases do escape para levantar as viaturas). Percebemos que, embora não fundamental, é uma ferramenta que pode ajudar com facilidade em algumas situações, principalmente quando basta um empurrãozito para o carro voltar a andar.

Jantamos novamente no albergue, uma omolete de bacalhau e uma massa de cotovelos cozinhados pelo grande chefe José Ramos. Pouco sobrou. O vinho do porto foi o final de ouro. Até houve direito a sobremesa, queijo espanhol oferecido pelo Costa e Marmelada da família Ramos e café.

Tomamos a decisão nesse jantar de alterar o plano da grande travessia do Deserto a sul de Ouadane até Tidjikja por motivos óbvios: percebemos a dificuldade de atravessar as dunas com os carros tão pesados, e tínhamos algumas avarias mecânicas que podiam comprometer a arriscada passagem.

A alternativa seria rolar pela pista do vale branco, mais turística, mais próxima de pequenas populações e, por isso, mais segura. Se por um lado o risco seria menor, a maior diversidade da paisagem enriqueciria a volta pois, em vez de apenas areia, passariamos por montanhas, oasis, vales e também dunas.
Tidjikja - O Grande Erro e Aventura

De manhâ partimos em direcção a Atar onde atestamos até à rolha, inclusivé os 200 litros de gasolina para o V8. Quando ligamos o GPS percebemos que teriamos de voltar 30 km para trás para apanhar a pista que programaramos com a ajuda do computador do André. Mas tomamos a decisão (O grande Erro) de progredir até OUJEFT a sul, e depois, tentar rodar a Este para apanhar a pista programada.

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O caminho até Oujeft estava bem marcado e era bem visível, apenas algumas dunas que se apoderavam da pista fizeram voar alguns 4x4 que tinham medo de não subir.

(Video do Toyota 80 a voar com o Costa ao volante)

Chegados a Oujeft começaram os problemas em decidir que direcção tomar, pois o terreno complicava e a pista estava menos marcada em muitos km. Com a ajuda dos locais encontramos a pista que seguia por um vale e contornava um mar de dunas.

Logo após o almoço percebemos que não chegariamos a Tidjikja nesse dia, pois o n.º de km progredidos era pequeno, e o trajecto correcto estava em azimute a 30 km para este, mas não existia maneira de o alcançar facilmente. Rolávamos a Sul em paralelo com o trajecto correcto que se encontrava a Este. A direcção era boa e decidimos continuar.

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Varanda para o deserto
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(Acampamento no 1.º dia "perdidos" no deserto, numa espetacular "varanda" com vistas para o deserto sem fim)

A pista traiçoeira e pouco marcada levou-nos ao melhor ponto de acampamento de toda a viagem. Ficamos num alto plano com 200m2 que mais parecia uma varanda para o deserto, pois o mar de dunas mais abaixo perdia-se no horizonte. O nascer do sol sobre essa emensidão prometia.

Mesmo longe tivemos a visita de três miúdos locais da aldeia mais próxima e como estávamos altos viram as nossas luzes a embora não dissessem uma palavra que se percebesse decidiram tentar a sua sorte. Levaram umas t-shirts e bolachas, pareciam não querer ir embora. Tive de os despachar apontando para a luz da aldeia muito ao longe e com uns pequenos empurrões. Depressa perceberam que deveriam tomar caminho. Sem qualquer luz desapareceram rapidamente na escuridão.

De manhâ estavamos cobertos de areia. A nossa exposição ao vento era grande, uma vez que estavamos num ponto elevado e o vento soprava forte vindo do deserto de areia, a ponto de nos "quase" enterrar. O local onde tínhamos acampado parecia diferente e fez mesmo inclinar o Toyota 80. As tendas estavam enterradas uns bons 5 cm.

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Enquanto desmontávamos o acampamento e tomávamos o pequeno almoço apareceu companhia. Eram as mulheres da aldeia mais próxima com bebés ao colo e com bujigangas para vender. Troquei umas latas de atum por um colar.

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Mal iniciamos a viagem ficamos duas ou três vezes enterrados e sair da varanda de areia, mesmo a descer, era difícil. Em direcção à aldeia perguntamos pela direcção que deveriamos tomar para tentar apanhar a pista que teimava em não aparecer. Conseguimos rolar uma vez em círculo, voltando ao ponto inicial até que percebemos que teriamos dificuldade um encontrar a pista. Assim decidimos contratar o chefe local para ir connosco mais à frente. E assim foi, negociamos e por 2000 Ouguias foi connosco até à pista, ainda tivemos de lhe pagar mais 4000 Ouguias para rolar mais para a frente, uma vez que a pista por entre as dunas desaparecia frequentemente. Assim que o terreno melhorou, deixando de ser areia, a pista voltou a aparecer e o senhor ficou pós-se a caminho para trás, levou uma garrafa de água e os 6000 Ouguias, parecia satisfeito, e feliz e, não parecia problema algum fazer uma dúzia de km a pé até a Aldeia.
O povo do deserto

Mesmo nos locais mais longínquos tivémos quase sempre contacto com alguém, ora em aldeias ora em trilhos de passagem encontramos um povo simpático e quase sempre disponível para uma ajuda, quer a dar indicações, quer na tentativa de vender alguma bujiganga. Claro que quase sempre pediam alguma coisa, mas raramente eram insistentes e sempre que podiamos colocar um sorriso na cara de alguem, especialmente crianças, assim o faziamos. E valia a pena pois o pouco que tínhamos era mutio para eles.

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O Lago de Argila

A pista levou-nos a um lago de argila seca sem saída aparente. Tivémos tempo ainda para um banho pois existia um poço que tinha água à profundidade de um metro.

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(Poço encontrado no lago seco que permitia a extração de argila)

Rolamos pela extremidade interior do lago até encontrar surpreendentemente um camião mercedes de 26 toneladas e 240 cavalos de 4 rodas motrizes traseiras 6x4 do ano de 1973. Os sacos de argila não estavam carregados e estavam a substituir os rolamentos de uma roda. O contacto com o responsável do grupo de mais de 10 era fundamental para nos indicar o melhor caminho, afinal passariamos com toda a certeza pelo mesmo trilho do camião. Depressa percebemos que não era com explicações que nos indicaria o caminho, mas o senhor já de idade foi amigo e decidiu ir connosco até Tidjikja, pelo menos foi isso que percebemos na altura. Entrou no V8 e a indicação dele era exactamente o mesmo percuso que tínhamos feito.

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Passados uns bons 30 km percebemos a que a sua intemção era indicar-nos o caminho. Apontou para uma trialeira pela montanha acima que mal se percebia e repetiu bem alto TIDJIKJA.

Se ainda existissem dúvidas, desfizeram-se logo após a subida, pois apareceu um trilho bem marcado, especialmente pelos rodados do camião.

O camião deveria ter alguma dificuldade naquela súbida em pedra maciça com uns calhaus aqui e acolá que não podiam ser evitados, era fácil perceber a causa dos rolamentos estragados, pois subir por ali carregado de sacos com argila devia ser bem difícil.

Logo após a subida o senhor pôs-se ao berros e deu a entender que queria voltar para trás. Ficamos bem surpreendidos pois tínhamos a ideia de que iria à boleia connosco até Tidjikja.

Para nosso entendimento o homem teve uma atitude excelente, compreendeu bem a dificuldade que teríamos em encontrar o trilho e prontificou-se em ir connosco até ao local certo colocar-nos na pista certa sem a certeza de que o levariamos de volta. Será que fariamos o mesmo? Só podiamos fazer uma coisa, leva-lo de volta. Tiramos à sorte com um fuzível numa mão e calhou ao Serafim essa tarefa. Demourou ainda uns bons 40 minutos a levar o homem até ao camião e voltar.
A grande subida de areia.

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(Topo da grande subida)

Progredimos bem pelo trilho indicado, pela montanha, por vales e também por pequenas dunas de areia branca, que faziam desaparecer o trilho, mas conseguimos sempre encontrar o seu rasto mais à frente até que.... chegamos a uma enorme montanha de areia que fez novamente desaparecer a pista.

Só existia uma solução, pois de um lado o terreno era montanha rochosa e, de outro, um mar de dunas demasiado grande para transpor assim, subir, era a opção lógica. Subimos por uma vertente pouco inclinada, uns bons dois km de rampa sempre em areia e deu para puxar pelo motor ao seu máximo. Uma vez lá em cima procuramos a descida, mas o sol traiçoeiro escondeu-nos a passagem. Ficamos enterrados várias vezes a tentar descer, pois a descida era em areia solta e moe em dunas bastante quebradas. Houve tempo para subir a pé até ao pico mas alto da duna e ver um enorme vale a perder de vista na direcção correcta de Tidjikja.

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O trilho só poderia ser nessa direcção, mas não poderiamos arriscar, tínhamos os carros com pouco conbustível, as reservas de água baixas e teríamos de tomar a decisão correcta, ou arriscariamos a ficar parados num trilho que, em dois dias não passara, uma única viatura, apenas o camião avariado.

Foi neste dia que percebemos no que nos metemos, sabíamos qual a direcção a tomar, mas fazíamos apenas uma ideia onde estaríamos, pois os mapas que tínhamos e a geografia do ponto onde estávamos não permtia a nossa localização. Era terrível perceber que estavamos perdidos mas ninguém deu parte de fraco e todos nos mantivémos únidos. Posteriormente, percebemos que a situação era bem mais complicada do que nos pareceu no terreno, e que um acidente ou avaria seria bem mais problemático naquele trilho.

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Em conjunto decidimos voltar atrás uns bons km até uma pequeníssima aldeia que tínhamos avistado atrás e convencer alguém a indicarmo-nos o caminho. Assim tornamos a descer a grande montanha de areia pelo mesmo lado. Acampamos logo após a descida e quase todos dormimos um bom sono. Nessa noite pouco se cozinhou.
O Último dia perdidos

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Logo de manhã procuramos a aldeia e negociamos um guia. O chefe começou por pedir uma exorbitância, 200.000 Ouguias (571 euros) só podia estar louco. Parecia intransigente mas depois de 15 minutos fechamos o negócio em 50.000. Ainda assim um valor bem alto. Mal recebeu colocou um jovem que não teria mais de 20 anos no nosso carro e só disse em bom francês que era muito bom guia. Claro que ficamos com a ideia que teríamos sido "levados" mas que alternativa tínhamos?

A nossa intuição sobre o vale após a subida estava certíssima, voltamos a subir a grande duna pelo vertente menos inclinada, mas uma vez lá em cima a descida era um pouco mais à esquerda do que tentamos no dia anterior, e era bem fácil. Só podia, pois o camião também teria de a fazer. Como era possível não termos visto a passagem? O Sol era a explicação. Aquela hora do dia de manhâ o caminho aparecia à nossa frente, e no dia anterior com o por do sol a sobra escondeu-nos a passagem.

Ainda assim foi bom termos o rapaz connosco, o vale que parecia liso era constituido por pequeníssmas dunas cheias de barba de camelo, os trilhos do camião estavam sempre a desaparecer, mas o rapaz naquela imensidão de areia sabia sempre por onde ir. Após o grande vale que demoru mais de duas horas a percorrer chegamos a uma aldeia. O rapaz queria ficar por alí, mas obrigamo-lo a vir connosco mais uns km e ele veio.

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Mais avarias

A cruzeta da roda da esquerda do Jeep partiu. Só havia uma solução, tira-la definitivamente para o que sobrava da cruzeta não prender a roda e evitar, assim, que o estrago fosse maior. Uma hora de lavoura. Bendito Serafim que com um  martelo na mão retirou a cruzeta serrou... e, finalmente, retirou o semi-eixo do Jeep.

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Durante esta reparação apareceram uns habitantes locais de dromedário que se encontraram com o nosso guia e repetiram infinitamente a mesma palavra durante 15 minutos como se estivessem a comprimentar e não se vissem à um século.

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Mais uns quilómetros e brinco traseiro do lado esquerdo da Isuzo partiu e o guia de molas da traseira do lado direito saltou. Com umas martaladas, um varão roscado e umas porcas ficou mais que novo. O Inventor daquele brinco que não era de origem devia levar um puxão de orelhas. O serviço ficou melhor feito no Deserto do que na oficina em Portugal. Mais umas duas horas queimadas.

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O rapaz guia que durante as avarias deitava-se na sombra das viaturas devia achar que éramos bem doidos, em pouco mais de 30 km duas avarias. apesar de ele não dizer uma palavra que nós percebessemos ainda brincámos com ele a fazer umas maloquices, como assobiar, atirar pedras,... e um pouco de ginástica, mas ele ganhava sempre.

Veio connosco até um ponto que, finalmente, a pista se juntou com o trilho que estava marcado no GPS e logo nos apercebemos da grande diferença na marcação. Parecia uma estrada principal no nosso país, o novo trilho estava até marcado com pedras pintadas de branco.

Antes de chegarmos tivemos direito ainda a outra avaria. Esta zona da pista era sinuosa em terreno macio mas com alguns saltos. Em resumo bem divertida, mas o amortecedor especial da Toyota do Serafim não resistiu a uma grande pancada e felizmente não torceu o veio, apenas se desencaixou. Apertado de novo com "loctite" nunca mais voltou a ceder. Aliás como todos as outra reparações, só o Jeep estava limitado a três rodas motrizes em vez das quatro. Bendito bloqueio ARB Frontal.
Satisfeitos em Tidjikja com dois dias de atraso.
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Chegados à cidade grande parecia que tínhamos chegado a casa. a sensação era a mesma, pois o misto de emoções foi grande.

Abastecemos e tomamos a decisão de ficar num albergue que tinha na dispensa "essence" a 430 Ouguiaso litro (pedia 550 antes de negociar). Em Tidjikja não existe gasolina nas bombas, e eles percebem que é essencial e lucrativo ter armazenado uns litros. Comprei 80 litros.

Decidimos ficar no albergue, Os preços em acampamento eram de 2000 por pessoa com direito a duche, de 5000 em quarto sem casa de banho, mas com direito a duche no balneário público, e de 8000 em quarto com casa de banho. Ficamos todos em quartos, uns com casa de banho e outros não. Negociamos apenas 4 quartos e pelo mesmo preço dormimos 3 num quarto. Jantamos pela primeira vez "fora" por 2500 (7,14€) um simples mas bem servido "cus cus" de frango com bastantes legumes e uma garrafa de água fresca.

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(Albergue Le Phare du Désert)
O brasileiro Edimundo

Grande surpresa nossa quando o responsável do albergue me interrompe o jantar para receber uma chamada do telemóvel dele. Curioso, lá pego no telefone e ouço português com sotaque de brasileiro e como não estava nada à espera nem entendi a primeira frase. Era o Edimundo, proprietário do albuergue onde estavamos em Tidjikja (Le Phare du Désert) e um outro em Kiffa. Residente na Mauritânia há 15 anos está bem relacionado com as autoridades especialmente no que diz respeito ao turismo. Proprietário de uma agência de viagens trabalha bem as expedições ao deserto, organizadas com guia, aluguer de viaturas, ajuda na elaboração de roadbooks para alguns rallys como o Budapeste Bamako, Timbukt Challenge, Heroes legend,... Um bom contacto para quem pretender viajar com guia.
A Tristeza de não ir a Kiffa

Claro que ele estava à espera que a nossa direcção fosse Kiffa. Seria a direcção óbvia, mas os dois dias de atraso que tínhamos não o permitiriam. Fica um bom motivo para voltar à Mauritânia pois segundo os relatos o trilho é de uma beleza rara. A nossa direcção seria a Capital com passagem por Aleg onde nos encontraríamos com o Edimundo, este atalho permitiu-nos poupar os dois dias de atraso, pois a noite seria passada já no litoral com acampamento na praia.
A Praia

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(Praia junto à capital Nouakchott)

Logo chegados houve quem não resistisse a um banho. A temperatura estava fresca sobretudo devido ao vento que se fazia sentir, mas a água estava suficientemente quente para um bom mergulho. Foi a vingança pelas temperaturas acima dos 40º que apanhamos no interior, sobretudo no deserto.

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Quando chegamos já era o final do dia, a largura do areal era grande por isso podia-se rolar bem, a maré estava baixa e podiamos rolar na areia molhada sem precisar de muito motor. Paramos 30 km depois no posto militar. Dissémos que iríamos acampar perto deles e, prontamente, nos ajudaram a escolher um local. Seguimos um Toyota Landcruiser 70 4200 diesel transformado em pickup com uma metrelhadora na caixa conduzido pelo oficial. Passados 1000 metros estava enterrado numa duna. Seria a nossa vez de ajudar. A tracção da frente da viatura não estava a entrar, assim, para além de o libertármos ainda tivemos de o rebocar com uma cinta até piso seguro. O dever estava comprido e como agradecimento tivemos direito a escolta durante toda a noite, embora só de manhã nos tenhamos apercebido pois estavam suficientemente longe para nos dar privacidade.

O comandante local apareceu de manhã a agradecer e a dar uma dicas sobre o trajecto. A maré estava alta e deveriamos saír por uns 10 km da praia pois existia uma zona em que as dunas chegavam ao mar. Assim fizemos.

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Os Pescadores

Quando voltamos à praia e há medida que nos afastávamos da capital a praia tornava-se mais "selvagem". Podiamos apreciar uma diversidade de aves marítimas, caranguejos em quantidade e muitas espécies de peixes mortos na areia. Infelizmente, vimos também, algumas grandes tartarugas e até um golfinho. Suspeitamos claro da pesca artesanal e da falta de consciência dos pescadores.Vimos ainda muitos pescadores e conseguimos comprar alguns peixes acabados de pescar para o jantar, entre os quais umas cavalas que se revelariam bem saborosas no carvão.

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(Um dos milhares de Caranguejos que circulavam na praia. O cadáver de uma das tartarugas que vimos; O Tubarão Gato recém capturado)

Ofereceram-nos mais à frente umas lagostas, mas nem sequer perguntamos quanto era, pois não cabiam nos nossos tachos. Vimos ainda um tubarão gato a ser pescado e a enorme satisfação dos seus pescadores que pareciam ter ganho o mês.
Bendita reserva GPL.

A progressão na praia com algumas incursões pela areia mais seca fazia aumentar os consumos, e quando demos por isso estavamos quse secos. Como estavamos no litoral apenas tínhamos 20 litros de reserva nos nossos jerrycans. Não nos preocupamos muito pois como os barcos dos pescadores têm motores a gasolina deveríamos conseguir facilmente gasolina. Estas presunções revelaram-se traiçoeiras, o preço pedido por litro era caro, 600 ouguias, e a gasolina existente estava já misturada com óeo, uma vez que os motores dos barcos eram a 2 tempos. Por incrível que pareça foi mais fácil comprar gasolina no longínquo interior do que nas aldeias litorais. Foi a reserva do tanque de GPL que salvou o dia.
O Parque Nacional

Chegados ao parque nacional compramos a entrada ao polícia local que estava responsável pela cobrança. Logo percemos o abandono das instalações do parque, talvez por falta de visitantes cujo movimento justificariam a presença daquelas instalações e de responsáveis na entrada do parque. O esqueleto da baleia já muito conhecido marcava o local.

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(O esqueleto da baleia na entrada do Parc National du Banc D'Arguin )

Não nos cruzamos com qualquer todo-o-terreno estrangeiro durante a nossa viagem, com excepção de alguns solitários camiões "mogs" que encontramos na estrada durante a travessia do Sahara Ocidental. Se existissem dúvidas aos relatos do Juste de Atar e do Edimundo de Tidjija, elas estavam desfeitas, pos a Mauritânia é, de facto, e de momento um país em crise de turistas.

Mal entramos no parque e contornamos a enseada deparamo-nos com uma paisagem bem diferente da praia. Baixios de água, planícies de sal que permitiam altas velocidades, e uma pista mal marcada pela falta de passagem de viaturas.

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(Sinalética do Parque Nacional a indicar a direcção)

Apesar das pistas serem por vezes difíceis de encontrar existiam sinaléticas a indicar a direcção.
O FIM do Todo-Terreno

Chegados ao fim do parque (a norte)  tivémos a percepção de que as pistas de Todo-Terreno ficariam para trás. Embora a viagem estivesse longe de terminar o alcatrão passaria a dominar a viagem. Paramos logo numa estação para abastecer, aumentar a pressão dos pneus e para comprar alguns mantimentos.  Aproveitamos o final do dia para rolar o mais possivel a norte. Pelo caminho ajudamos dois condutores, um com um furo e outro que estava atascado na areia da berma da estrada.
Último Acampamento

Acampamos nesse dia perto do último posto militar antes de Nouamghar. Cidade grande perto da fronteira por onde não chegamos a passar.

O nosso objectivo era acampar em segurança, o mais perto possível da fronteira, para de manhã saírmos o mais cedo possível e continuar a rolar a norte com o objetivo de ficar em Dakhla. Foi aqui que o peixe foi grelhado, e como sobrou quem se deliciou foram os militares que tiverem direito a uma refeição extra.

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(fronteira Mauritânia)

No dia seguinte a passagem da fronteira até foi rápida, cerca de 3 horas, para nossa surpresa na entrada em Marrocos fomos "scanerizados" e passamos o teste do cão farejador. Felizmente a revista manual quase não existiu, já uma francesa com ar de hipie que viajava à boleia foi alvo de revista geral, mas pela sua desconcentração e risos não tinha motivos de preocupação.
Dakhla
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(Entrada em Dakhla e Desvio na estrada para um Campo de Kite Surf)

Chegamos a Dakhla por volta das 18.00 horas. Justicava-se uma paragem em hotel para uma boa noite de sono antes da grande tirada até casa. Percorremos a grande avenida na lingua de terra pouco explorada. É, sem dúvida, um lugar com potencial turístico enorme. Passamos pelos Surf e Kite Camps que se encontram mesmo antes de chegar a Dakhla. À entrada da cidade o posto militar é mais rigoroso e usam, como na fronteira, um livro de escrivão para registar todas os estrangeiros que entram e saem da cidade.

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Procuramos hotel, o primeiro não tinha quartos, o segundo era caro e o terceiro serviu. O Hotel Doumss situado na Avenida Principal de *** era agradável, sobretudo, pelos nossos anfitriões que eram simpáticos. O colchão e o duche eram uma maravilha depois de muitos dias de tenda.

O jantar valeu pela companhia do grupo, pois sem termos de o preparar tivemos mais tempo para por a conversa em dia em jeito de resumo dos momentos que tínhamos vivido nos dias anteriores e cada um revelou o que mais e menos tinha gostado ou corrido bem, mas o saldo era sem qualquer dúvida bastante positivo.
O Rápido Regresso

Depois do óptimo pequeno almoço no hotel, de alguns atrasos (principalmente o meu), e depois de levar o puxão de orelhas do grupo Laughing iniciamos o regresso.

Sem qualquer programação de como iria correr, percorremos os quase 3000 quilómetros de volta apenas com 6 horas de paragem para dormir. O grupo manteve-se coeso apesar de algumas divergências, pois alguns elementos queriam parar mais tempo e outros queriam avançar o mais possível. Mas mesmo perante este desafio prevaleceu a unidade e com a liderança especial dos mais experientes, sobretudo do Serafim, chegamos a um entendimento. Estávamos de parabéns, pois até esse desafio foi transposto.

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(O Regresso por Tanger, Preparação da Documentação. Entrada no Ferry)

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(Massagem nas costas depois de longas horas de condução. Nós a partir e um grupp de Motards holandeses a chegar. O ferry.)

De referir ainda algumas tripécias pelo caminho.
O Pneu

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Um pneu não aguentou o "stress" da viagem e resolveu ficar neste estado.
O sono

O sono é o maior inimigo dos condutores. O truque e descançar ao máximo e trocar várias vezes de condutor. Os bancos traseiros do 100 formaram uma cama bem confortável.

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FIM

A viagem perfeita é como um círculo: a alegria da partida completa-se com a satisfação da chegada.

Tags: travel Viagens orlongo

José Ramos

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